
largo do Paissandú, em São Paulo.
DO OUTRO LADO DA IDADE
Meu grau de observação da vida é muito grande e, dias atrás, pude perceber isso com clareza. A clareza foi tão grande que fiquei uns três dias pensando sobre o assunto.
Estava eu no Paissandu, vindo da casa da minha amiga Daniela, quando tudo aconteceu e eu me coloquei a pensar.
Na Santa Efigênia eu encontrei um amigo meu, aliás, alguém mais que amigo uns tempos atrás e começamos a conversar e matar a saudade. A Pessoa me perguntou pra aonde eu estava indo e eu avisei que iria até o Paissandu. Gentilmente a pessoa foi me fazendo companhia e eu, claro, adorei... Uma companhia linda de viver e que me deu certa nostalgia de alguns anos atrás... Mesmo sabendo que posso voltar ao tempo na hora em que eu quiser, a nostalgia me pegou de jeito.
Ali conversando se aproximou o ônibus Mandaqui -107 P, aquele que vem de Pinheiros e vi que o ônibus parava muito próximo da gente, ou seja, longe do ponto dele. Até que a porta se abriu e veio descendo um velhinho quase que se desmontando. Com algumas sacolinhas nas mãos, uma bengala que era pra se apoiar, esse velhinho me pediu ajuda pra descer do ônibus. Eu e o menino que estava comigo o ajudamos.
Com o velhinho já ali do nosso lado, eu fiquei pensando, como um filho, uma filha, um parente deixa um senhor nessas condições sair a essa hora da noite sozinho? Já eram 23: 40 de uma quarta-feira qualquer.
Sem conseguir me conter eu perguntei ao velhinho – O senhor está vindo de onde a essa hora? – ele me olhou se tremelicando todo por conta da idade.
- Estou vindo da Usp, meu filho – Sorriu pra mim.
Meus olhos indagaram tal resposta. Pensei: o que um velhinho desses estava fazendo uma hora dessas na Usp. Indaguei num tom desconfiado – Usp?
- Sim... Usp! Sou professor universitário aposentado. Não ganho nem pra matar a minha fome com a aposentadoria, então tenho que continuar a trabalhar. Hoje sou orientador de trabalhos de conclusão, um cargo reabilitado pra mim, fui professor naquela instituição muito anos. Mas como eu comecei a estudar muito tarde por falta de condições, isso aos 40 anos, com 20 anos de carreira quando era para estar brilhando, já era um professor velho.
- O senhor mora onde? – perguntei com meus olhos brilhando e nitidamente tenso diante daquele senhor.
- Moro na Duque de Caxias com a Ipiranga. Tempos atrás, no meu tempo, os bandidos respeitavam crianças, senhoras e senhores. Hoje eles não nos respeitam mais. Então pego o Cachoeirinha e desço ali bem pertinho de casa. Mas me diga, você é um jovem bonito, comunicativo, me diga o que você faz? Pensa em fazer alguma faculdade? – perguntou o senhor mais íntimo de mim.
- Letras...! Eu fiz letras... Mas tomei horror de dar aulas. Agora vou fazer outra faculdade – Eu estava tenso sem saber o motivo.
- Eu também... – Respondeu o senhor segurando no meu braço.
- O senhor também vai fazer outra? – perguntei num susto!
- Não... Eu sou letrado também, menino... Na sua idade nem formação eu tinha, você tem aparência menor a 30 anos...
- Exatamente 30 anos – sobrepus ao que ele falava.
- Na sua idade. Eu começava a fazer o cientifico (o ensino médio hoje), tinha uma imensa vontade de estudar... até que aos 40 anos consegui entrar na universidade estadual. Formei em letras aos 45 anos, comecei dar aulas por essas voltas e hoje tenho que continuar a trabalhar para não morrer de fome. Moro sozinho. Graças a Deus moro num apartamento que consegui comprar, pois se não tivesse comprado viveria em condições bem piores.
- Sílmar... Calma... – Interrompeu o menino que estava comigo.
Foi quando notei que sem nenhum pudor eu estava chorando diante de todos. Respirei fundo e disse ao senhor:
- Entendo, senhor... Eu te acompanho até a porta do seu prédio...
Pegamos o Terminal Cachoeirinha nós três: eu, o menino que estava comigo, e o senhor que conversamos. Dois pontos depois descemos e deixamos o senhor até a porta do edifício dele. Antes de entrar ele ainda me olhou e disparou.
- Não tenha medo de você, meu jovem... Você é grande e cada história de vida é diferente da outra. Seus princípios são nobres, você é nobre, sua ânsia é nobre... Não tenha medo de você! Siga em frente e faça diferente que não será preciso tornar-se um orientador de monografias para sobreviver... Siga teus sonhos! - Ele olhou para o menino que estava comigo e ainda disse – Eu tive um também... não está mais vivo e gostaria que ele me levasse logo para modo de tê-lo por perto novamente, o amo até hoje, mas as pessoas quando olham pra mim, minha idade as fazem me respeitar, não acreditam que um dia eu também tive namoradinhos... – Pegou em minha mão novamente – Siga teus sonhos e não tenha medo do amanhã!
Com essa frase ele passou pela porta daquele prédio e sua imagem desapareceu quando a porta se fechou.
Comecei a chorar muito nesse momento. Até que o menino que estava comigo me abraçou fortemente e, sem dizer uma só palavra, um beijo caloroso aconteceu no cruzamento da Duque de Caxias com a avenida Ipiranga.
Silmar Gama