SALVATION
Salvation é um seriado que estou escrevendo a quatro mãos com o Nino Pontes, meu amigo, como os primeiros episódios sou eu que faço sozinho, quero mostrar a vocês uma palinha do trabalho bacana que está ficando, vou mostrar uma cena entre Jean e Eric — dois amigos de idade bem diferente, Jean de 50 e Eric de 22 anos — onde ambos discutem a vida. Jean por ter tido uma vida amarga, toda dedicada a cuidar de sua mãe, recebe conselhos do amigo mais novo quanto aos rumos que está tomando.
CENA 38 CASA DE JEAN/ QUARTO/ INTERIOR/ NOITE
CAM abre em uma mão ligando o som, colocando o cd pra tocar. A MÚSICA QUE COMEÇA A TOCAR É “DE VOLTA PARA O ACONCHEGO” COM ELBA RAMALHO. Instantes. Abre e vemos Jean melancolicamente se dirigindo para sua poltrona predileta, ali em um canto do quarto. Fica a pensar enquanto a música rola por uns instantes.
ERIC — (off) Pensando a vida, Jean...?
CAM corrige e vemos Eric parado na porta, com um sorriso encantador para o amigo.
JEAN — Estou sim. (T) Vem cá, chega mais pertinho. (aponta para um pufe ali do lado) Melhor senta aqui do lado... (Eric acata as ordens do amigo sentando ao lado dele) Essa música me faz pensar a vida, meus tempos mais joviais, me faz lembrar muito da minha mãe também. (T) Estranho, faz alguns dias que a enterrei e ela ainda está aqui tão presente, tão firme em cada canto dessa casa...
ERIC — Você não está sozinho, Jean. (T) Estamos aqui, eu e os outros!
JEAN — Mais cedo ou mais tarde vocês vão embora, e eu terei que encarar a dura realidade, melhor, começar novamente, ver o que faço da vida.
ERIC — (Anima-se) E o menino que você conheceu no metrô?!
JEAN — (Acha graça) Como você falou, é um menino, Eric! No auge dos meus 50 anos não posso pensar, muito menos ter esperanças com um garoto de 20, da sua idade! Você que devia conhecê-lo melhor...!
ERIC — (T)E iria sem dúvida, se fosse a mim que ele quisesse... Pelo que você disse se não tiver me enganado, ele ficou bem interessado em você, mesmo você no auge dos seus 50 anos. Pra que querer morrer junto com sua mãe, Jean? Nem sei como é essa dor, morro de medo dela, mas verdade seja dita, você tem que dar seqüência na sua vida, pelo menos tentar viver o que deixou pra trás...
JEAN SENTE FORTE OS CONSELHOS DO AMIGO, LEVANTA.
JEAN — (T) Ele pensa que sou rico. Certamente ta achando que vou dá-lo uma vida melhor, tirar de alguma periferia, sei lá... Talvez ele tenha uma vida dura, quer se ascender!
ERIC — (T) Amigo, acorda! Senta na realidade e perceba que está mais ridículo do que personagem de trama mexicana. Pare de arrumar desculpas pra não ser feliz, pra se punir, pra se sentir menos culpado por alguma coisa que te pune aí dentro, dentro seu coração.
JEAN - (Espantado com a audácia do amigo) E que experiência da vida você tem pra falar em nome do “comportamento humano”. Eric! Eu não posso me encontrar com esse menino, não posso, eu, no auge dos meus 50 anos/
ERIC — (CORTANDO) E no auge da sua burrice/
JEAN — (CORTANDO SOBRE ELE) Iludi-lo, usar aquele corpinho gostoso e depois cair fora!
ERIC — E quem disse que você tem que usar e depois cair fora? Viva isso, vá pegar o menino, vai namorar, sair de balada. Acreditar que vocês vão transar muito depois de chegarem da boate!
JEAN — (Sobressalta) Eric, o mínino de realidade, por favor! Onde já se viu isso!
ERIC — Em vários lugares que vou, vejo pessoas de sua idade com rapazes mais jovens e sem nenhuma vergonha de ser feliz. Essa tristeza só está na sua cabeça, Jean! Você perdeu sua mãe, podia estar sozinho e não está. Estamos todos aqui e, pra melhorar a vida, você teve um menino jovem, cheio de testosterona no metrô te olhando, prontinho pra te deixar sem ar e ciente de que tem que voltar pra academia e melhorar o condicionamento físico! Pára! Agora é hora de viver! Essa música da Elba é linda, mas se for pra você coloca-la e toda vez pensar em morrer, enfiar a cara num buraco, manda a Elba de volta pra sua cidade natal e vamos mexer na vida, meu amigo! Esperar o pior das pessoas agora não vai te ajudar em nada. (T) Vamos pegar o telefone dele agora e tratar de marcar um encontro entre vocês dois. (TIRANDO ONDA) Pois no auge da sua idade, não se pode perder muito tempo. Daqui a pouco esse menino é avô e você não se decidiu ainda. (T) Qual o nome dele mesmo?
JEAN — (Sem graça) Ariel... Você me deixa constrangido, Eric!
ERIC — (T) Eu te deixo constrangido...? Reze pra quando você tiver 80 anos eu estar aqui limpando sua bunda, pois do jeito que você é, nessa idade não vai segurar nem pensamento. (APROXIMA DO AMIGO) Eu vou te ajudar a encarar essa nova fase. Você é muito chato, confesso, mas eu tenho o mínimo de compaixão pelas pessoas...
JEAN - (T) Era tudo que eu queria, a compaixão de um bicha nova/
ERIC - Olha pra mim então...! Era tudo que eu não queria, uma bicha velha sem nenhuma prática de vida!
OS DOIS ACHAM GRAÇA, CAEM NA RISADA E, NUM ATO AMIGÁVEL, FESTEJAM A NOVA PERSPECTIVA.
