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domingo, 15 de agosto de 2010

À seguir, entrevista concedida por Vieira Gama ao site Diversidade Sexual.

O OUTRO LADO FASHION DA HISTÓRIA

Prestes a fazer 31 anos, ele é conhecido pelo seu mau humor e temperamento difícil, não leva desaforos pra casa, é capaz de apontar o dedo na cara de alguém muito maior do que ele sem medo Do signo de câncer, ascendente escorpião, diz estar solteiro e não acredita em amor eterno, aliás, eterno em sua vida nem a vida após a morte. Já foi evangélico, hoje não suporta o cristianismo e afirma que não acredita nesse Deus mimadinho que as igrejas pregam. Em sua opinião, Cristo, se existiu, é amor e não chantagista. Freqüentou o candomblé num período de sua vida e, nele, encontrou os melhores atores que conhecera “é uma mentira atrás da outra dentro dessa religião”, que a seu modo de entender, diz ser muito rica e bonita. Fugiu de casa aos seis anos de idade cansado de sua família e acabou dentro da favela do Morumbi perdido na casa de um casal desconhecido, que lhe entregou à policia dois dias depois. Apaixonado pela sua mãe e sua madrinha, esta última falecida há menos de dois anos, sonha em ser escritor de novelas desde que assistiu Rainha da Sucata, de Sílvio de Abreu, em 1990.

Teve algumas paixões durante esses anos, mas afirma que amou uma única vez na vida entre seus 20 anos de idade. Não pensa morar muito tempo no Brasil e odeia estar cercado de muitos gays. Hoje se diz bissexual, e é o máximo que aceita falar de sua tão conturbada sexualidade. Com sua sobrancelha esquerda arqueada é assim que, Vieira Gama, também conhecido por Silmar Gama ou Danonne Fashion, recebe o blog Diversidade para algumas horas de conversa.

DIVERSIDADE — Você prefere ser chamado de Silmar ou Vieira?

VIEIRA — Eu não sou solicito e não gosto de pessoas que tenham essa característica, portanto, por quem eu conheço aceito que me chamem de Sílmar, mas quem não detém dessa credibilidade, prefiro Vieira, aliás, formalidade é tudo na vida de uma pessoa.

DIVERSIDADE — Então lhe chamaremos de Vieira. Aliás, de onde vem esse nome Vieira, é seu sobrenome?

VIEIRA — Deixa pra me chamar de Sílmar fora daqui, ninguém precisa saber que somos amigos. (risos) Durante muito tempo fui Sílmar Gamah. Uma numeróloga charlatã me disse que tinha que colocar um “h” no meu nome pra dar sorte. Então coloquei. Só que minha vida nunca andou tão pra trás como nesse período. Como sou teimoso, não desisti do nome assim de cara, até que as pessoas começaram a pensar que eu tivesse nacionalidade árabe e pude ver que a palhaçada tava ficando ridícula. Daí resolvi voltar a ser Sílmar Gama, mas ninguém entende meu nome de cara, toda vez que falo meu nome, alguém diz”ahã?”, “como?”, coisas que me irritam muito. Como meu pai nunca me deu nada financeiramente, resolvi roubar um dos sobrenomes dele, o Vieira... Assim ninguém me confunde mais.

DIVERSIDADE — Vieira é mais ator ou mais escritor hoje dia? Todos nós sabemos que você exerce as duas funções?

VIEIRA — Hoje me considero mais autor do que ator. Até meus 25 anos era o contrário, mas como tempo, o autor foi falando mais alto e minha paixão em escrever aumentando. Pelo menos estou tentando, sempre!

DIVERSIDADE — Não tem mais paixão em atuar, não pretende voltar mais aos palcos?

VIEIRA — Eu tenho paixão pelo teatro, adoro atuar, é minha base desde os 12 anos, quando comecei. Só que o tempo foi passando – como eu falei - o autor foi falando mais alto, fui me sentindo mais importante escrevendo do que atuando. Nem me lembro a última vez que subi aos palcos como ator, mas em todas que subi foi incrivelmente lindo. Agora uma amiga minha que, no passado foi minha professora primária, deseja que eu faça um texto seu, muito bom por sinal, o Elogio da Loucura, segundo ela, o texto é a minha cara e a peça pede minha presença. Foi a maneira mais sutil que alguém me chamou de louco. Talvez eu faça, estou aguardando levantarem a produção do espetáculo.

DIVERSIDADE — Você se considerava um bom ator?

VIEIRA — Sempre me achei um ator medíocre, mas fazia pose de bom ator, sempre... Talvez, sacando isso, optei por escrever a atuar, acho que foi minha melhor escolha. Pelo menos se for um autor medíocre as pessoas não vão perceber isso depois de pagarem ingresso pra me assistir, né? E com isso se revoltarem. Nunca soube de ninguém ter tacado tomate em um escritor...

DIVERSIDADE — Como nasceu o Vieira ator? Achava-se tão medíocre como ator por que insistiu no sonho?

VIEIRA — Eu não insisti, parei! Mas não serei tão radical comigo, eu era muito ruim atuando, mas com o tempo, com as minhas experiências, fui melhorando, houve uma hora que deixei de fazer caras e bocas e passei a atuar de verdade. Comecei a fazer teatro aos 12 anos de idade, fiz muita coisa boa. Aos 17 entrei na escola de teatro profissionalizante, O Conservatório Mozarteum – o melhor da América Latina, fatalmente, três anos depois, acabei me profissionalizando no ofício, meu professor Ronaldo Pisaneski era muito bom, ou se aprendia ou se aprendia com ele, não tinha outro jeito, de fato aprendi.

DIVERSIDADE — Você teve uma companhia de teatro, fez muita coisa com ela, como que nasceu a CIA. Do Plator?

VIEIRA — O professor de teatro nasceu aí, foi um acidente. Eu fazia o profissionalizante com uma amiga minha, a Jéssica, ela sim já dava aulas de teatro numa escola da Brasilândia. Como éramos o cu e a calcinha, Jéssica me convidou pra dar aulas com ela, aceitei, adorei e fiquei nisso por 8 anos. Tivemos um casamento muito bom, foi minha melhor parceira, tenho certeza de que fui muito mais profissionalizado pela Jéssica do que propriamente pelo teatro. Éramos dois loucos sonhando, achando que as coisas seriam fáceis pra nós, que em dois anos no máximo estaríamos em Malhação. Não chegamos à Malhação, mas montamos a nossa, aí nasce o Plator, com mais de 100 adolescentes conflitantes querendo salvar suas vidas. Uma loucura, tivemos de tudo ali, gente boa, gente ruim, mas todas querendo mudar, e essa vontade pela mudança era linda, às vezes pensava ter em mãos uma bomba atômica, e tinha mesmo, quantas vezes eu e Jéssica nos reuníamos na tentativa de suavizar a dor daquelas pessoas. Brasilândia não é brinquedo, não! Já vi pai surrando filhos em troca de nada, como também vi pais sem uma perspectiva de vida acreditar no talento do filho. Era lindo o Plator! Uma mistura de várias emoções e a gente ali no meio daquele arsenal.

DIVERSIDADE — Dessas experiência nasceu “Na Corda Bamba”, me fale um pouco sobre esse momento...

VIEIRA — Eu odiava Renato Russo e a sua Legião Urbana, fui conhece-los melhor em 96 quando Renato morreu, tudo naquele momento era Legião Urbana, fui obrigado a gostar, pelo menos ouvir, e nessa obrigação nasceu uma paixão por algumas de suas músicas que achei fantásticas, entre elas, Faroeste Caboclo e Eduardo e Mônica. Naquele momento, eu, vivia uma hecatombe emocional, minha vida estava uma loucura, estava no início de uma tórrida paixão que virou amor tempos depois, minha mãe estava doente, lembro que ela ficou uns dois meses internada, e eu tinha aulas pra dar e ia me dividindo entre ficar com ela no hospital e as aulas que eu dava — também tinha a faculdade me consumindo o tempo, uma loucura total. Fora tudo isso, esses conflitos todos, tinha o lance dos problemas dos alunos, se eu achava que a minha vida estava difícil, muitos ali não tinham vida, foi quando juntando forças, eu e Jéssica, pensamos em retratar todo aquele drama que nos cercava, nisso nasceu “Na Corda Bamba”, uma história livremente inspirada na vida de João de Santo Cristo e Jeremias, mesclada com a Eduardo e Mônica...

DIVERSIDADE — Sentia-se um João de Santo Cristo diante dessas pessoas? ********

VIEIRA — Não me sentia, não! Aliás, essa pose de Salvador da Pátria me irrita muito, não fiz nada ali, os alunos que fizeram por meio que suas vidas mudassem. Mas se fosse preciso, enfrentava quem tivesse que enfrentar por eles, como eu e Jéssica muitas vezes enfrentamos. Encaramos a polícia, acusações frívolas de uma caseira da escola, marginais, traficantes e mais uma legião urbana que se aproximava pra nos prejudicar no trabalho.

DIVERSIDADE — Depois dessa experiência toda você se afastou dos palcos, como foi isso? Sentiu nas costas a pressão por tanta responsabilidade? Como foi montar na Corda Bamba?

VIEIRA — Montar na Corda Bamba foi uma delícia! Não tínhamos um puto no bolso. Eu e Jéssica fizemos duas festas na escola em que dávamos as aulas de teatro e com o dinheiro arrecado levamos a peça para o teatro Pirandello. Ficamos em cartaz, fizemos o sonho daqueles adolescentes que não imaginavam que podia chegar tão longe acontecer, fizemos também muitas apresentações fora, até festival em Taubaté fizemos e fomos premiados por isso. Tudo porque eu e Jéssica tínhamos um casamento muito sólido, embasado na confiança e sempre acreditamos no topo que podíamos chegar. Depois de tudo isso, Jéssica, precisou se afastar pra trabalhar, e eu ainda continuei por mais dois anos. Mas não deu, né? Uma hora aquele sonho ficou pequeno pra mim e eu tive que ousar em outros terrenos. Queria falar de homofobia, queria tratar de outros temas, dos quais não poderia tratar dentro de uma escola. E mesmo sendo uma escola, tive liberdade pra ousar bastante.

DIVERSIDADE — Já afastado do teatro, como autor, fez Dark Room, uma peça literalmente gay com uma temática mais forte, como foi essa experiência, por que Dark Room não deu certo?

VIEIRA — Sério, não deu? Imagina se tivesse dado então... (Risos) Dark Room foi um texto meu plagiado, um cidadão da região da Consolação resolveu monta-la, deu a ele os créditos da peça, copilou todas as minhas idéias e acredita ser o autor daquele espetáculo. Mas tenho orgulho do meu Dark, tenho certeza que ainda vou explanar essa história, tenho um dever moral com ela. Não gosto dos termos “temática gay”, “causas gay”, pra mim são histórias com enfoque ou não enfoque gay, não sei por que segregam tanto o publico desse jeito, dá-nos uma sensação que quem não é gay não pode assistir, vai ser barrado na porta do teatro se tentar. Dark Room é a história de um cara fracassado, por sinal gay, que revolve revistar o seu passado, algumas de suas histórias vividas pra tentar mudar-se emocionalmente e deixar um futuro digno pro seu filho, que ele descobre existir de maneira torpe. Um grande drama, uma história que acho linda, me toca profundamente.

DIVERSIDADE — É verdade que escreveu essa história dentro de um dark room?

VIEIRA — Não é verdade, não! Mas é verdade que ela nasceu dentro de um. Estava na extinta boate Salvation, no centro de São Paulo, num dia em que estava bem cansado, sabendo que dentro do dark room da boate havia um sofá, fui até ele e me esparramei todo. Estava esperando o Anderson, meu namorado na época. Do nada, de repente, alguém se sentou ao meu lado e começou a contar sua vida. Era um rapaz de uns 35 anos mais ou menos. Empolgado, até mesmo desesperado, ele me contou sua vida quase que todinha. História essa forte e muito realista. Fiquei com aquilo na cabeça, ao chegar em casa, sentei ao computador e escrevi tudo. Depois desse dia não o vi mais e até hoje não sei se aquela pessoa existia fisicamente, pois ela apareceu do nada e da mesma forma sumiu ali dentro.

DIVERSIDADE — Você chegou a dizer algumas vezes que tinha medo de ficar conhecido como autor de histórias gay, que gostaria muito de escrever sobre outros temas. Você mudou de ideia ou ainda tem esse medo?

VIEIRA — Não era bem um medo que eu tinha, eu não queria ser conhecido somente como autor dessas histórias, não tenho vergonha delas. Antes de Dark Room e outras coisas com enfoque gay que eu fiz, escrevi muita história sem nenhum gay presente, fui colocar o primeiro homossexual numa história minha em Na Corda Bamba, antes disso, não havia gays nelas. Mas confesso, a partir de então, em todas terá pelo menos um contando seu drama. Eu escrevo sobre sociedade, e na sociedade têm gays, não podia ser diferente nas minhas obras.

DIVERSIDADE — Se escreve sobre sociedade, por que em sua sociedade literária não há lésbicas?

VIEIRA — Não sei escrever sobre elas, poderia desrespeitá-las em algum momento. Por não saber, deixo esse dever a quem tem competência. Fico até entristecido com isso, convivi com muitas lésbicas e não aprendi a me comunicar com elas. Não que eu saiba me comunicar com os meninos, mas me sinto mais à vontade falando sobre eles.

DIVERSIDADE — Você é gay? Se considera pelo menos...?

VIEIRA — Vou te falar uma grande verdade. Durante muitos anos me perguntava isso, se eu era ou não gay... Eu me sinto ser humano, uma pessoa que se apaixona por histórias, pessoas, em nenhum momento o que elas têm entre as pernas passa pela minha cabeça, talvez seja bi não praticante, talvez nem saiba o que sou ainda... Apenas não me escondo atrás de fantasmas. Odeio rótulos... Só não afirmo o que sou porque sou uma pessoa livre, não subtraio a possibilidade de querer viver uma história de amor com uma mulher amanhã e, se isso acontecer, não quero a organização da parada gay me enchendo o saco na porta de casa — Pôxa, você era gay, está prestando um desserviço estando com uma mulher, o que os que não assumiram vão entender disso?, vão se enrustir mais e mais...! — Quer saber? Foda-se pra quem é enrustido! Eu matei um leão por dia quando assumi certas coisas na minha vida e não morri por isso, aprendi na dor como ser um cidadão dono e ciente de suas vontades! Não sou uma marca, não sou fabricado por ninguém, então não há por que eu ter que dizer se sou ou não, desse ou daquele grupo!

DIVERSIDADE — Falam que você não gosta de travestis, gays afetados e que por essa razão não escreve sobre eles...?

VIEIRA — Falando assim parece que eu não gosto de uma pessoa por ela ser travesti ou por ser afetada, não é verdade... Eu não gosto devido ao comportamento. Uma travesti que saiba sentar à mesa, conversar comigo sem me cortar a cara, tem minha amizade com toda certeza, do contrário, ela lá no submundo e eu aqui... Tenho atualmente amigas que são travestis, cada qual com seus ofícios e nos damos muito bem. Comportamento social é tudo na vida de uma pessoal. Você pode ser o que for, mas quando vai à casa das pessoas, seu ofício deve ficar na sua! Eu também não receberia um policial armando dentro da minha sala, tenho crianças em casa, alguém armado choca mais do que alguém travestido, pelo menos pra mim. E sobre eu não escrever sobre elas por não gostar delas é mentira, jamais deixaria de escrever sobre uma coisa que não goste ou concorde. Eu escrevo sobre pessoas, gosto de falar de uma maneira próxima de uma realidade, jamais poderia falar de travestis em tv da maneira que as conheço. Seria censurado e muitas diriam que não é bem assim. Gay não gosta de se ver como ele é na televisão, prefere que a tv mostre um gay acima do bem e do mal e que abra mão de suas vontades pela felicidade do outro. Em toda minha vida eu nunca conheci um gay assim, nunca vi gay nenhum abrindo mão de felicidade, deixando de praticar maldades pelo bem comum, enfim, todos que eu conheço e conheci já foram cruéis em algum momento, eu mesmo cansei de ser, mesmo não me definindo como sendo desse ou daquele grupo, saca? (risinhos)

DIVERSIDADE — Então desmente que seja homofóbico?

VIEIRA — Não vou admitir que me pintem como o Pelé do mundo gay. Depois que descobriram a palavra homofóbia ninguém mais tem preconceito e é só homofobia nesse país. Se ser homofóbico é isso: mostrar a vida como ela é, dentro de um universo que chamam de universo gay, “sou sim”, não mudarei a visão de pensar das pessoas, continuarei falando do que eu vejo e entendo, mesmo que me taxem como um ser do mal. Que a sociedade gay que mostre o contrário, eu, na minha vida, faço diferente. E não adianta fazer a putaria que fazem e uma vez ao ano, no feriado de Corpus Christi, juntar todos na Paulista, pelados, querendo direitos e igualdades. As mulheres estão conseguindo seus direitos sem fazer parada alguma, e a situação é quase a mesma, sofrendo preconceitos e sendo julgadas como inferiores. O que muda uma situação social é a educação, nada mais! Não é parada, não é sindicato, não são ongs que só arrancam dinheiro do povo cobrando 20 mil reais pra permitir que você coloque um carro na parada! Isso é ridículo!

DIVERSIDADE — Antes de mudarmos o enfoque da entrevista, você diz que pretende escrever novelas e que já escreveu uma, me fale sobre isso...

VIEIRA — Eu pretendo colaborar sim, vamos ser humilde né? Mas como não posso ficar esperando isso acontecer, precisava ter certeza se tinha fôlego pra escrever pra televisão. Ufa! Quase morri, mas escrevi uma novela com 203 capítulos sozinho e com 35 páginas cada um. Foi um resultado feliz, gostei do que li, do que tinha, uma grande experiência. Mas agora só faço ganhando!

DIVERSIDADE — Num momento da entrevista disse que teve uma paixão tórrida que viraria amor depois, como foi essa experiência, pode falar sobre ele ou ela? Vamos falar de amor agora! (risos)

VIEIRA — (sisudo) Acho que tinha uns 20 anos quando isso aconteceu, foi uma história linda, ficamos um tempo juntos, éramos inocentes nessa época, éramos puros, tudo era um sonho, tudo era esplendido, trocamos muitas experiências, só que ele ficou lá, em 2000, e hoje estamos em 2010, né? Mas inúmeras paixões vieram de lá pra cá, muita coisa boa eu vivi e alguns desastres também aconteceram.

DIVERSIDADE — Você nunca fala desse amor do passado, notamos que há uma alegria ao falar dele, mas você não entra em detalhe. Por quê?

VIEIRA — Olha, eu tenho um grande respeito por essa pessoa! Foi, como eu falei, uma grande história que vivi, de lá pra cá muitas coisas aconteceram, eu mudei, ela mudou, os anos passaram... Mas não tem como eu lembrar dela com tristeza, mesmo que tenha acabado de uma forma lamentável, o que vivemos de bom é muito superior! Se contar às vezes que sorri com ela vai perceber que a alegria é incontável, muito bom mesmo, é uma história minha e tenho muito orgulho de mim, de quando revelei a ela o que sentia, e o que enfrentamos juntos, cada um à sua maneira, mas o que enfrentamos pra defendermos nossa história. Acabou ali, mas eu – pelo menos – mantenho isso guardado com muito carinho só pra mim. (Silencio)

DIVERSIDADE — Foi uma mulher, se refere à ela...?

VIEIRA — Me refiro a uma pessoa, anjo...!

DIVERSIDADE — Silmar... Quer dizer, Vieira, estamos nos aproximando do final da entrevista, agora entraremos numa parte mais emocional. Há pouco tempo você perdeu uma pessoa muita querida. Como que você lida com as perdas, como lidou com esta?

VIEIRA — Primeiro não lidei com ela, estou lidando ainda! Perdi minha madrinha, meu maior exemplo de ser humano, uma dor indizível, mas que temos que dar seqüência e encontrar uma nova razão pra seguir. Hoje tenho minha mãe, sei que não a terei pra sempre, quando não a tiver mais, Vieira Gama irá para o mundo, vou voar, vou ter meus vôos sozinhos! Eu tinha um coração dividido igualmente para minha mãe e para minha madrinha, hoje ele está pela metade, quando se esvaziar talvez adote uma criança.

DIVERSIDADE — Tem medo da solidão? É isso?

VIEIRA — Da solidão não! Talvez de ficar velho... Com certeza de ficar velho! Não me apego em relacionamentos, não preciso estar namorando ou casado pra me sentir completo, gosto muito de amigos, família, meus animais... Mas odeio ficar velho, ver algumas mudanças que isso traz.

DIVERSIDADE — Se considera um cara de sucesso, realizado profissionalmente?

VIEIRA — Eu me sinto realizando. Não fiz tudo que eu quero, nem a metade ainda, mas quem sabe um dia, se Deus permitir, chego perto do objetivo.

DIVERSIDADE — Um texto que não morre sem escrever...?

VIEIRA — Eu tenho um amiga que já falamos sobre isso. Um dia quero escrever a história da minha mãe, da minha madrinha, da Dona Maria – mãe de um amigo meu que falecera há pouco tempo também -, a história da dona Ozana, minha vizinha, Dona Nica – a mulher que cuidava de mim quando criança, enfim... (emociona-se) Grandes mulheres que conheci e que marcam muito minha infância! Quero falar também de um período que rejeitei minha família, minha mãe e resolvi fugir de casa. Tinha seis anos, tomei um ônibus e saí andando pela cidade, parei na favela do Morumbi, dentro de uma outra família, ali, pude ver que a minha família era maravilhosa, e olha que só tinha seis anos. Esse casal que me achou me levou à polícia dois dias depois e eu voltei pra casa.

DIVERSIDADE — Qual a maior diferença entre o Sílmar de 20 anos para o Vieira completando 31?

VIEIRA — Sílmar não tinha tanta bagagem de vida, já o Vieira é mais maduro, sofreu pra caralho, mas muitíssimo divertido e cheio de esperança! Esperança é meu forte hoje dia, embora escreva de uma maneira bucólica, meu estado é irônico, engraçado... Adoro uma boa gargalha e ficar de pilequinho.

DIVERSIDADE — Se o paraíso existisse, como seria o Paraíso de Vieira Gama?

VIEIRA — Que delícia essa pergunta! Meu paraíso teria muito alexander, tribal house, shows, teatro, televisão, drag queens, dark roons, luxuria e, claro, closes e muitos carões, pra Serginho (fazendo menção ao Sergiinho do BBB) nenhum botar defeito! Eu gosto dessa luxuria toda, dessa patifaria... Não há nada melhor do que chegar num lugar de óculos escuros, levantar os óculos e dar uma sondada nas pessoas que se encontram ali...Não adianta, eu tenho um lado Tieta de ser!

DIVERSIDADE – Agora faremos o jogo rápido, algumas palavras e você resumirá o máximo falando um pouco sobre cada uma delas.

AMOR:

VIEIRA — Ele existe e é bom pra caralho! Quem já fez amor e não se conforma com uma trepada!

FAMÍLIA:

VIEIRA — Minha família é muito engraçada, tem horas que lembra muito a família da Maria do Carmo, em Senhora do Destino. Alguns barrocos, amores, medos, enfim, uma família como as outras.

AMIGOS:

VIEIRA — É bom com eles, a vida é mais leve, divertida!

DEUS:

VIEIRA — Gente...! Eu já fui evangélico, já fui macumbeiro, hoje acho que sou mais espírita ou budista se for falar a verdade... Eu acredito em Deus, mas meu Deus é diferente, Ele não é mimadinho, que só te dá as coisas se você fica ali venerando Ele. Meu Deus não dá nada, apenas lhe oferece condições, é oDeus da Liberdade, do Livre Arbítrio, muito diferente dos que os dogmas pregam, acreditam! E bem longe da mentira das pessoas do candomblé que estão destruindo essa linda e rica religião. Faço parte da igreja Gasparetteniana! Adoro ele, o Gasparetto, suas teorias e ensinamentos! Sou Livre!

COM QUEM SE CASARIA?

Leandro Guilheiro, somente! Como ele é hétero não me casarei nunca! (risos)

FILHOS:

VIEIRA — Não sou fissurado em tê-los, mas curto muito a ideia de ter alguém, que mesmo não estado mais por essas terras, terá parte de seus princípios...

DIVERSIDADE — Vieira foi muito bom tê-lo por esses dias, conhecendo mais sobre você e, claro, se divertindo muito! Quem te conhece sabe o quanto é engraçado e otimista! Foi muito bom! Mais alguma consideração?

VIEIRA – Sim..! Vai à merda! (gargalhada) Nunca pensei que ficasse tão nervoso com essa brincadeira, teve uma hora que você levou a sério e pensei que me arrancaria aquele nome... (Gargalhadas)

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Abaixo uma música de cabeceira de Vieira Gama

Elis Regina / É com esse que eu vou