
Todos os dias me pergunto o que estou fazendo neste execrável mercado de trabalho. Me sinto um estranho no ninho no meio de centenas de pessoas que buscam um sonho. Me sinto ainda pior quando noto que não busco os sonhos que aquelas pessoas buscam, que as fazem acordar todos os dias às cinco da manhã e trabalhem até as 20 horas. Por volta das 16 horas todos parecem ter usado maxixe, os olhos lacrimejam e a mente não obedece mais os comandos. Alguns muito deprimidos não esboçam comentar nada sobre o fato, outros... outros sofrem e falam como forma de desafogarem suas dores, dores de cabeça, dores nas costas, dores na mente, dores na alma. E assim sucessivamente vão seguindo seus dias como se fossem máquinas programas à perder 12 horas diárias de suas vidas, ficando longe de filhos, país, amigos e muitos sem o direito de ver os mais próximos morrerem. E lá ficam chorando a pensar como estaria sendo o sepultamento de seu ente.
Não me vejo nesse mundo, não me vejo assim, mas estou assim. Alguns outros, dia após dia, vão seguindo com seus motores ingenuamente programados para todos os dias pararem quando a banda bate 20 horas. Todos os dias estão felizes, todos os dias sonham mais um pouco, todos os dias querem algo mais da vida, do que ganharem apenas o do transporte e alguma misericórdia que os deixem comer.
Eu lamento minuto a minuto por estar vendo isso. Quantas vezes, em meio daquela babel, que ninguém se entende que conhecem uma única linguagem, a da cobrança, viajo diante de minha tela branca e nela construo inúmeras histórias que um dia pretendo contá-las. Ninguém entende o que passo, o que dói em mim. Seria sim feliz, sem um tostão no bolso, nada me cobrando e apenas um computador pra que eu pudesse viajar e conhecer o mundo.
Não entendo, jamais entenderei como essas pessoas são felizes e qual sistema motor as fazem sonhar e acreditar que chegarão lá. Os que chegaram, os que enfrentaram o que enfrento e chegaram “lá”, exibem em seus semblantes o orgulho da vitória, de terem vencido a inércia da tela branca e, com muito esforço mental, terem conseguido o que muitos chamam de lugar ao sol: trabalhar de segunda a sábado, tomando quatro comprimidos por dia a e a base de muita coca-cola. Esse é o sabor da vitória que todos falam diariamente pra mim quando eu penso em desistir. Mas ninguém sabe que essa vitória, pra mim, tem um sabor amargo.
Os que adoram esse sabor também jamais vão me entender, principalmente, aceitar que eu pense assim. A vida é dos que fazem faculdade, trabalham e ganham mais de mil reais a mês e transmitem no semblante cansado a honradez do trabalho honesto. Pra mim esse sistema NERVOSO é muito desonesto, pagamos impostos pra sofrer mais de 8 horas ganhando um salário de merda e ainda assim encontrar motivos pra dizer que é feliz.
By VIEIRA GAMA
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