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terça-feira, 23 de novembro de 2010

PAULISTA - DA LIBERDADE AO CÁRCERE

PAULISTA – da liberdade ao cárcere.


Sim. Esta cena se deu na mais paulista de todas as avenidas: grupos de jovens homossexuais são atacados por jovens de classe média. Lendo assim logo pensamos em se tratar das páginas policiais dos jornais mais sangrentos de que tivemos notícia, ou se nos remetemos aos tempos da idade média, logo diríamos se tratar de uma atitude não menos aborígine, não é mesmo?

A história se repete incontavelmente e nada muda e pelos idos da carruagem não mudará tão cedo. Por algumas razões que, nós, do grupo gay (ou se achar melhor: sociedade gay), não fazemos nada para que mude.

Será que ninguém percebe que o papel de “coitadismo” está démodé e não convence nem aos de dentro, quiçá os de fora? O que eu quero dizer com tudo isso? Exatamente que raciocinar e pensar como um grupo desfavorecido, que não é o nosso caso, não nos levará a lugar algum. Há muito deixamos de ser minoria, e há muito somos uma classe economicamente elevada, pelos menos considerada. Então, por que nada é feito nesse sentido? O que leva centenas de gays assistirem "dois" apanhando na Vieira de Carvalho e nada se faz para evitar a tragédia?

Se você que lê esse texto está perdido diante de tantas interrogações, não se assuste. As interrogações nada mais são como respostas para os nossos próprios atos: o que estamos fazendo para melhorar ou mudar essa situação intolerante. O contrário do que se imagina, esperamos da impressa uma atitude que é nossa! Esperamos dos heterossexuais uma compreensão que muitos de nos – isso se lê a maioria – ainda não tem. Enquanto os homossexuais não se unirem, não pensarem como uma única cabeça não veremos a PL 122 aprovada, como outras tantas leis que viriam para saudar nossas necessidades.

Bom mesmo seria deixarmos de nos portar como coitadinhos, vítimas da intolerância, e mostrássemos ao mundo, às pessoas que somos mais a gente e que sabemos – de fato e inegavelmente – todos os direitos e deveres que nos assiste. Pra isso será necessário que todo o grupo cumpra com os seus deveres e não apenas fique à espera de uma ajuda que, pode até ser que venha – da imprensa, da sociedade heterossexual um dia – mas que pra isso seja necessário uma compreensão que às vezes pra vencer ao algoz é necessário bater no carrasco. Carrasco se entende nossa própria fraqueza: a incerteza que podemos crescer sem mendigar ajuda.

E para fecharmos com chave de ouro, falando do título desse texto: "Paulista – da liberdade ao cárcere". Entende-se que temos que fazer sentido para nossa Parada do Orgulho Gay, que há muito deixou de existir um sentido nela. Ninguém está interessado nos atos políticos que acontecem no meio dela, apenas se preocupa com os corpos e a quantidade de pessoas que se vai beijar. Se no dia que podemos mostrar o que somos, essa é a maior preocupação, entende-se também que passará 50 anos – e se nós não mudarmos por dentro – estaremos 50 anos à frente na posição de reivindicação e contamos cada vez mais nossos mortos. Vítimas de uma guerra que o próprio grupo faz questão de varrer para debaixo do tapete. Sendo assim, no palco da liberdade – A Av. Paulista – no cárcere de morte.


By Vieira Gama


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