
O VÔO DAS ANDORINHAS
Em solidariedade à dona Angélica, mãe do jovem Alexandre Thomé Ivo Rajão, que me colocarei prontamente a falar do caso.
– Animado pro jogo, filho?
– Sim, mãe. Bastante animado!
Estas foram as palavras trocadas entre Alexandre e sua mãe naquele domingo, no dia do jogo do Brasil contra a Costa do Marfim.
Por que entrei nessa história? Ao ler primeiramente esta notícia fiquei com aquilo na cabeça, passou um dia até que dormi e, no meu sonho, um título gritava na minha cabeça, “O Vôo das Andorinhas”, pássaros que atravessam um continente em busca de temperaturas mais quentes, assim fugir do inverno temeroso. E no orkut de Alexandre, depois eu descobri, que se lia a mensagem de Pedro Bial, lida na eliminação de Serginho no BBB , nada mais, nada menos que o “O Voou de Peter Pan”. Coincidências ou não, estou tocado por esta história, assim como a morte brutal de Edson Néri Da Silva me tocou anos atrás. É vexatório dizer que a cada dois dias um homossexual é morto do Brasil, segundo dados do grupo gay da Bahia. E, pra não fugir a regra, Alexandre de apenas 14 anos, literalmente engajado nas causas sócias gay, deixa de ser militante e tornara estatística. Triste fim.
Eu quero muito ser pai e essa vontade vem batendo em minha cabeça nos últimos tempos. E como todo pai e toda mãe, criamos nossos filhos pra serem felizes, galgarem espaços numa sociedade lapidária e não pra que sejam mortos brutalmente, covardemente, com inúmeras pancadas na cabeça, com a cabeça diversas vezes jogada contra uma pedra ou mesmo por estrangulamento e asfixia mecânica, e logo depois ser jogado como verme, lixo, excremento num terreno baldio. Nenhuma mãe cria um filho pra isso, sendo homossexual ou não, dona Angélica, como mãe não pôde fazer nada pra salvar seu filho e isso a mesma carregará para toda a vida, como se tivesse deixado de cumprir com a sua obrigação de mãe, aquela que reza, ao ver um filho recém nascido: “onde estiver, haja o que houver eu lhe protegerei”. Esta mãe não pôde nada e talvez isso torne sua dor insuperável.
Eu chorei vendo a entrevista de dona Angélica, eu choro olhando a foto de Alexandre, sinto demais por um jovem, ainda com tanta história pela frente tenha sido injustamente assassinado, e com uma frente de sonhos e projetos a serem realizados. Como Peter Pan, ainda com tantos vôos pela vida e sonhos a serem buscados.
Se eu pudesse, tivesse como, seguraria as mãos dessa mãe e choraria junto, lutaria até o fim para ver os tais skinheads atrás das grades, pagando por essa calamidade. Mas uma coisa eu tenho certeza, mesmo não podendo salvar seu filho, dona Angélica buscará pela justiça até o fim... Haja o que Houver...
— Voe, Alexandre, vá para um outro continente, mais aquecido, longe da frieza humana dessas Terras... Voe e seja feliz, longe dessa ignorante intolerância...
Silêncio...
Uma canção que dedico ao Alexandre: HAJA O QUE HOUVER/ MADREDEUS
"E que Deus conforte o coração de dona Angélica"
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